Em sua coluna, Xuxa revela detalhes sobre abuso que sofreu na infância

Vou contar um episódio que é o mais difícil que vivi nos meus 56 anos. É difícil escrever, pois tenho que reviver todos os sentimentos: culpa, raiva, impotência e medo. Mas se isso puder ajudar alguém a pelo menos entender essa tribo de gente que assim como eu sofreu abuso, já valeu meu sufoco e esforço.

Tudo começou muito cedo, eu devia ter uns 4 anos talvez, e morava no Sul com minha família toda. Bloqueei muito sobre esse assunto então eu não sei se é essa data de fato, talvez um ano a mais ou a menos. O que eu me lembro? O cheiro e a sensação…

Minha mãe costumava colocar um edredom no chão depois do almoço e deitar com nós cinco para tirar um soninho na parte da tarde. Eles costumavam nos dar um elixir que abria o apetite. Como sou intolerante ao álcool e sei que este elixir tinha – mesmo que em dose pequena – dormia mais profundo do que meus irmãos. No Sul também era comum misturar vinho com água e açúcar e dar pras crianças, o que também me deixava com mais sono do que o normal.

Minha mãe ficou grávida muito cedo e nunca teve babá, tentava dar de tudo para nós cinco. Hoje em dia, as pessoas podem ver isso como falta de cuidado, mas não foi o caso da minha mãe, que nunca deixaria nada de mal acontecer com um dos cinco filhos dela. Mas aconteceu. Depois de anos, perguntei às minhas irmãs se tinha algo parecido havia acontecido com elas também, mas para minha surpresa, não.

Por que eu fui a escolhida? Não sei, mas me lembro de um cheiro de álcool de alguém, uma barba que machucou o meu rosto e algo que foi colocado na minha boca. Acordei dizendo que alguém tinha feito xixi na minha boca e meus irmãos disseram que eu tinha sonhado. Essa foi minha primeira experiência com abuso sexual, que, diga-se de passagem, eu não me lembro direito, mas existiram outros casos…

Me lembro que andávamos de Kombi… Nós crianças íamos atrás. Eu tinha 5 ou 6 anos e os mais velhos eram pré-adolescentes, primos de segundo grau e amigos muito próximos da família. Sentia tocarem em mim, colocavam o dedo, doía, não sabia distinguir o que sentia, por isso não chorava e nem reclamava com ninguém sobre o acontecido.

Essa mesma pessoa vinha ao Rio quando eu já tinha entre 9 e 10 anos, e, quando a família dormia, colocava seus dedos por debaixo dos lençóis e me tocava. Nesse tempo, esse parente distante já era um adolescente e sempre que podia me tocava. Por que eu não gritava, não chorava? Não sei!

Aos 11 anos, meu professor de matemática do colégio Itu, que atendia pelo nome de Mauricio, me chamou depois da aula e, mesmo na frente da minha amiga Yara, ele disse que queria me deixar só de calcinha e colocar nas minhas coxas. Me perguntava: o que seria isso? Foi então que eu vi pela primeira vez alguém se masturbar. No outro dia, ele mandou que eu fosse ao quadro para escrever alguma coisa antes que os outros alunos da sala entrassem. Era hora do recreio, ele disse que isso iria me ajudar nas notas finais.

Eu escrevi o que ele queria no quadro e vi que ele se tocava embaixo da mesa, usava uma calça quadriculada e se mexia muito, não entendia muito bem o que ele tava fazendo… Foi aí que o ouvi gemer e depois se limpar. Eu perguntei o que tinha acontecido, se aquilo era colocar nas coxas. Ele riu e disse que não, mas que faria isso em mim, que não iria me machucar e que se eu falasse pra alguém sobre o que eu tinha visto ou o que ele havia falado: “ninguém iria acreditar, pois entre a palavra de um aluno e de um professor, o professor sempre ganha.”

Cheguei em casa e na hora do jantar, perguntei à minha irmã Mara o que era colocar nas coxas. Ela ficou furiosa e sem me explicar, queria apenas saber quem tinha me falado aquilo. Eu me borrei de medo, mas falei. Foi aí que eu e meu irmão fomos transferidos para o colégio de padre São Judas Tadeu – hoje Santa Monica – e lá tudo melhorou.

Por que isso aconteceu comigo? Não sei. Por que não gritei? Por que não falei logo pra minha mãe? Não sei! Não sei mesmo. Com esta mesma idade meus peitos começaram a crescer, eram dois caroços que doíam mais do que o normal, não podia dormir de bruços, tinha que usar top para tapar e camisas transparentes nem pensar.

Minha vó Olivia, mãe da minha mãe, tinha um namorado chamado Ubirajara, que pretendia se casar com ela. Eu ia ao apartamento dela, ficava vendo TV e o futuro “vovô” ficava perto e me fazia carinho até que minha vó fosse costurar e ele pedia para eu sentar no colo dele. Às vezes ele tomava banho e deixava a porta aberta.

O barulho que minha vó fazia enquanto cozinhava ou costurava o deixava livre para vir até a porta se tocar me olhando. Eu não entendia por que ele fazia isso e nunca perguntei nada. Então ele começou a tocar meus futuros peitos – sim ainda não tinha nada a não ser um mamilo um pouco maior. Uma vez vendo TV, ele acariciou meu cabelo, o cheirou e logo depois desceu a mão para os meus (quase) seios e os apertou. Doeu e eu o fiz parar, e ele disse que era só um carinho e que só o “vovô” podia fazer porque me amava como neta.

Por que não gritei? Por que não chorei alto? Por que não falei para minha mãe? Não sei, não sei, mas minha mãe decidiu pedir para minha vó não casar com ele. Meus irmãos foram contra e eu fui a favor da minha mãe. Eu disse que se minha mãe não queria e não gostava, eu também não queria e não gostava. Foi o máximo que eu fiz pra protestar o que vivi dos meus 10 aos 11 anos.

Com essa mesma idade eu frequentava Coroa Grande nas férias, era uma praia do litoral do Rio de Janeiro. Meu pai alugou uma casa, a casa azul, que era muito pequena, só tinham dois quartos. Meu pai e minha mãe ficavam em um, e o outro com duas beliches era onde dormíamos eu e meus irmãos.No alto verão, dormíamos na varanda de tanto calor e minha mãe colocava o famoso edredom e fazia uma cama enorme. Lá dormíamos eu, meus irmãos, amigos dos meus irmãos e às vezes um casal amigo dos meus pais. O homem, que se chamava Álvaro, era sem dúvida o melhor amigo do meu pai. Ele dormia no meio de todos para fazer companhia e cuidar das crianças, mas eu acordava com sua mão me tocando. Por que eu? Não sei!

Aos 13 anos, ele fez uma casa e me chamou para ver como estavam as obras. Disse que eu teria um quarto para dormir lá quando quisesse… Eu até o chamava de padrinho! Ele disse: “Dá um abraço no seu padrinho, faz tempo que você não faz isso” e me encurralou na parede de pedras da varanda e colocou suas mãos por debaixo da minha camiseta.

Eu estava de biquíni e camisetão. Ele tentou beijar minha boca. Me lembro que chovia e eu saí correndo pela rua até chegar na praia. Chorava muito, peguei um punhado de areia e passava no meu corpo para limpar toda sujeira que estava impregnada há anos… Chorei muito e pensei: se falo pra minha mãe, eles vão se separar, pois ele era o melhor amigo do meu pai. Se falo para o meu irmão, ele vai querer matá-lo…

O que fiz? Me calei até os quase 50 anos, quando resolvi falar no Fantástico, pois queria divulgar o disque denúncia, o Disque 100. Queria alertar as pessoas. Nós geralmente não queremos falar, porque é feio, porque não é certo, porque aprendemos que sempre tem que ter um culpado numa situação como essa. E é claro que nos sentimos culpados – eu me sentia culpada apenas por existir.

Dos 4 até os meus 13 anos, eu passei por várias situações que me fizeram ter mania de limpeza. Tomo de 3 a 4 banhos por dia, tenho vontade de estar com crianças pois elas não me fariam nenhum mal – isso é coisa de adulto. Hoje, quero emprestar minha voz em campanhas paras crianças que não falam, não gritam e choram sozinhas. Eu preciso fazer isso por elas, já que não fiz por mim.


Silvio Caldas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *