Manchas de óleo causam preocupação com impactos no meio ambiente

Com as manchas de petróleo atingindo cada vez mais praias baianas, a situação permanece ainda sem muitas respostas, mas causando receio dos impactos que o acidente deve gerar no meio ambiente. Usando a própria força, a população segue se unindo aos órgãos públicos para tentar minimizar o problema, entretanto, a preocupação se estende para além do que pode ser visto nas praias.

“Além desse óleo visível, existe uma parte do petróleo que está dissolvido. Ele é não-visível e microscópico. Essa forma do petróleo é a mais tóxica que tem, porque é dessa maneira que pessoas e animais vão acabar assimilando por contato, ou até ingerindo ao mergulhar”, explicou o pesquisador Ícaro Moreira, membro do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Segundo o pesquisador, o óleo é um poluente muito perigoso e uma das maiores preocupações é a chegada da substância aos manguezais, que são áreas mais sensíveis e difíceis de remover o petróleo. Caso chegue aos sedimentos de manguezal, animais como caranguejos, peixes e ostras podem acabar assimilando os materiais e acumulando nos tecidos.

Caso as técnicas de remediação não sejam bem aplicadas, durante o tempo, a densidade dos manguezais pode diminuir, assim como o número de peixes, ostras e caranguejos, podendo afetar até a fertilidade desses organismos. “As praias terão a recuperação mais rápida, pois o processo de subida e descida de maré são naturais, que auxiliam na quebra e degradação do petróleo”, comparou Ícaro, afirmando que o tempo de recuperação depende muito da turbulência de cada praia.

O pesquisador exemplificou a situação chamando atenção para um caso que presenciou enquanto cursava o mestrado. Segundo ele, uma área de manguezal que sofreu derramamento de óleo na década de 90 ainda possuía resquícios da substância na região em 2010. “O manguezal é onde o petróleo vai demorar mais, pois tem um sedimento muito fino e lamoso, com uma capacidade muito forte de se ligar ao poluente”, frisou.

Com compostos altamente tóxicos, como o tolueno, benzeno e xileno, que também estão presentes na gasolina, Ícaro Moreira explicou também que a coleta da substância nas praias deve ser feita com muita cautela, pois além de oferecer riscos ao meio ambiente, o petróleo pode causar muitos problemas na saúde da população, caso tenham contato frequente. Além disso, não pode ser colocado em ambientes fechados e aquecidos, pois há o risco de combustão.

Nascido praticamente na beira do mar, Augusto Borges, de 49 anos, é um dos voluntários que fazem parte do grupo Guardiões do Litoral, que se dedica a limpeza do óleo nas praias soteropolitanas. Ele, que já tinha o costume de fazer coleta de sacos plásticos, garrafas pet e outros resíduos indevidamente descartados das praias pela população, se viu assustado e preocupado com a chegada das manchas em Salvador. “Mesmo vendo a situação do óleo no Nordeste, a gente nunca espera que chegue na nossa casa”, lamentou.

Quando o petróleo chegou nas praias da capital baiana, Augusto começou a fazer parte de um mutirão e o grupo foi crescendo. Já que mora em Amaralina, o técnico de Informática faz a limpeza nas regiões de Amaralina e Pituba. Em entrevista ao Portal A TARDE, ele afirmou que a situação melhorou em Amaralina nesta semana, mas ainda há pontos com algas e crustáceos, além de pedras, que estão impregnados de óleo.

“Há muita dúvida no ar, não sabemos a origem e a quantidade que ainda pode chegar. Está fazendo mal para o meio ambiente e os voluntários estão tirando o óleo ‘no braço, na unha'”, disse. Para ele, a população deveria estar mais preocupada com a situação, pois ainda há muita gente frequentando as praias normalmente. “É uma situação perigosa e não há atitude, deveriam seguir o conselho da Ufba e interditar as praias”, concluiu.

Silvio Caldas

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